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Comportamento agropecuário de Mato Grosso, no final do século passado (I-VI)

publicado em 24 de fevereiro de 2017

Texto de Ney Iared Reynaldo, Dr. em História da América

Texto de Ney Iared Reynaldo, Dr. em História da América

Caros leitores, gostaria aqui de compartilhar um estudo desenvolvido por nós, no Curso de Ciências Econômicas, do Campus Universitário de Rondonópolis, acerca da Economia de Mato Grosso. Nosso Estado possui parte de suas terras dentro dos limites da Amazônia legal. Embora já ocupado desde o século XVIII com uma economia baseada em agricultura de subsistência e pecuária extensiva resultante da mineração, o Estado foi incorporado definitivamente ao espaço produtivo brasileiro, na década de 1970. A partir deste período, graças a uma política de incentivos fiscais, houve a implantação de grandes projetos agropecuários, atraindo empresas agroindustriais, tanto de capitais nacionais quanto estrangeiros.

Com isso ocorreram significativas transformações, na base produtiva, ou seja, a agropecuária tradicional cedendo lugar a uma agricultura modernizada e uma pecuária em expansão. O apoio público foi fator fundamental na ocupação e na transformação da base produtiva. Projetos de colonização, a política de preços únicos de combustíveis para todo território nacional e de preço subsidiado do óleo diesel que reduziu o custo da mecanização rural, a pesquisa agropecuária para a utilização das terras de cerrado e a política de crédito rural e preços mínimos viabilizaram a resposta exportadora nos anos oitenta, consolidando o complexo grãos e carnes, isto é, a soja e na pecuária bovina.

Segundo Censo Agropecuário (1995/96), a estrutura fundiária, ainda que reduzida, mantém-se concentrada. Os estabelecimentos geridos por administradores ocupam 2.520 ha em média, correspondendo a investimentos de grandes grupos empresariais. Quanto aos arrendatários, seus estabelecimentos tem aumentado sua área média. O número de estabelecimentos ocupados reduziu-se devido à consolidação da posse de terras no Estado, a exploração agropecuária, concentra 73,3% proprietários. O vigoroso processo de ocupação, associado à fronteira agrícola, redundou num aumento do número de estabelecimentos, o que permitiu um incremento de área total, passando de 37,8 milhões de ha para 49,8 milhões de ha no período 1985-1996. Ainda assim, a área total dos estabelecimentos representa somente 55% da área total do Estado em 1995. Entre todos os usos da terra, o mais forte incremento se deu nas pastagens plantadas, indicando uma expressiva pecuarização.

As terras produtivas que não eram utilizadas reduziram-se. As principais lavouras do Estado, segundo Censo Agropecuário 1995/1996, eram arroz, algodão, cana-de-açúcar, feijão, milho, soja e banana, que juntas somaram 97,4% das áreas de lavoura. Dessas, a soja isoladamente ocupava 61,3% da área total de lavouras. O arroz, tradicional lavoura do Estado, encontra-se em franca redução de área pela falta de capacidade do arroz de sequeiro para competir com o arroz irrigado do Rio Grande do Sul e, mais recentemente, com o arroz importado. Apesar da grande área ocupada por empresas agropecuárias e de alguns indicadores de modernização terem melhorado, Mato Grosso ainda apresenta um padrão tecnológico baixo. Em 1995, apenas 15.759 estabelecimentos (20% do total) tinham tratores e apenas 15,3% usavam fertilizantes.

Mato Grosso não possui região metropolitana e, por isso, os dados da PNAD serão apresentados apenas para o total do Estado. Uma primeira observação é que no período 1992/98 houve crescimento da população ocupada residente tanto nas áreas urbanas (2,2% a.a) quanto nas rurais (5,1% a.a), o que resultou num aumento de 2,3% a.a para o total do Estado. A atividade não-agrícola apresentou comportamento bem mais favorável do que a atividade agrícola para a população mato-grossense, tanto a urbana quanto a rural. Observa-se que a PEA rural não-agrícola apresentou crescimento significativo no período 1992-1998, a taxas de 10,7% a.a. Em 1992, eram 48 mil pessoas com domicílio rural ocupadas fora da agricultura, e em 1998, eram 90 mil. Esse aumento, aliado ao desempenho relativamente favorável do emprego agrícola, fez com que a PEA rural total crescesse 5,1% a.a no período considerado.

Um fato interessante sobre as pessoas ocupadas na agricultura é que elas eram 267 mil em 1992 (urbana mais rural) e, apesar da grande expansão da área cultivada nos anos noventa em Mato Grosso, totalizavam 268 mil pessoas em 1998. Ou seja, dado o perfil da agropecuária mato-grossense, com uma pecuária extensiva, por um lado, e com uma moderna produção de grãos, altamente mecanizada, por outro, os reflexos no crescimento do emprego agrícola foram muito pequenos. É interessante observar que a PEA agrícola sofreu pequenas reduções nas áreas urbanas (1,0% a.a) e nas rurais (0,3% a.a) no período 1992/98, principalmente porque nos anos noventa houve expansão da área cultivada no Estado, principalmente com grãos e oleaginosas (algodão, arroz e soja). Ou seja, o aumento da área cultivada se fez com pequena expansão do emprego agrícola, provavelmente pelos elevados índices de mecanização das novas atividades, como já salientado.

Do total da população rural ocupada no Estado em 1998 (289 mil pessoas), a maior parte estava empregada na agropecuária (198 mil pessoas). No entanto, cerca de um terço do total (90 mil pessoas) já tinha como fonte de emprego as ocupações não-agrícolas, o que significa que de cada três pessoas ocupadas com residência rural, duas estavam na agropecuária e uma estava em algum ramo de atividade não-agrícola. A realidade do meio rural mato-grossense permite o crescimento tanto das atividades agrícolas como das não agrícolas, seja porque existem grandes áreas de fronteira para serem ocupadas pela agricultura, seja porque ainda há muito para ser desenvolvido em termos de integração da produção primária com os elos a montante e a jusante da cadeia produtiva, com grandes possibilidades de crescimento nas ocupações geradas na indústria de transformação e nos serviços para o consumo da agricultura e também da população rural.

Os principais ramos de atividade não-agrícola nos quais a população rural mato-grossense está ocupada são os de prestação de serviços, indústria de transformação, comércio de mercadorias e serviços sociais, que responderam por 79% das ocupações em 1998. Pode-se perceber que os quatro ramos de atividade apresentaram forte crescimento nos anos noventa, com taxas que variaram de 4,9% a.a (indústria de transformação) até 25,5% a.a (comércio de mercadorias). O engajamento da PEA rural no ramo da indústria de transformação ocorre nos setores de processamento de matérias-primas oriundas da agricultura (agroindústria), principalmente nos complexos de grãos e oleaginosas (algodão e soja) e de carnes e couro, além das usinas de açúcar e nas madeireiras.

O crescimento das ocupações no ramo de serviços sociais deveu-se, basicamente, ao setor dos estabelecimentos de ensino público, cuja taxa de crescimento anual foi de 8,3% no período 1992/98. Já o desempenho do ramo de prestação de serviços, que isoladamente responde por um terço das ocupações não-agrícolas da PEA rural, e do comércio de mercadorias pode ser creditado ao crescimento das atividades ligadas ao turismo ecológico no Estado, principalmente nas regiões de Cuiabá, onde está localizada a Chapada dos Guimarães, e de Cáceres. Como atividades subsidiárias ao turismo ecológico, desenvolvem-se os hotéis, pousadas, hotéis-fazenda, barcos-hotéis para passeios no pantanal, restaurantes com culinária típica, etc., onde surgem novas oportunidades de trabalho para a população rural. Há também forte estímulo para o setor de construção civil.

Os principais ramos de atividade não-agrícola nos quais a população rural mato-grossense está ocupada são a construção civil e a indústria de transformação, que apresentaram significativas taxas de crescimento nos anos de 1992 a 1998. A principal ocupação (profissão) não-agrícola da população rural é a de serviços domésticos (18 mil em 1998), que apresentou crescimento de 12,2% a.a. Outros associados às atividades do turismo ecológico e, ao emprego doméstico nas residências urbanas e rurais. E outras profissões de acordo com o PEA rural, acerca dos serviços por conta-própria, serrador em madeireiras, pedreiros, etc. E para finalizar essa parte, ressalte-se, o “novo rural mato-grossense”, como o espaço amplo que as tradicionais atividades agropecuárias, no qual as pessoas ocupam-se mais em atividades não-agrícolas, ainda incipiente se comparado com outros estados brasileiros. No entanto, já aparecem regiões com fortes tendências para este movimento de transformação.

(*) Ney Iared Reynaldo, Dr em História da América, docente do curso de Bacharelado em Ciências Econômicas/ICHS/CUR/UFMT, email: niaredreynaldo@bol.com.br

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